Poiares

APL 3391

O que ha de mais notavel n’esta fregueria, é a celebre ponte e calçada de Alpragares – sendo aquella de um só arco, mas grande, e esta muito ingreme.
    Estão bem conservadas, apezar da sua muita antiguidade.
    São construidas de pequenos seixos rolados, extrahidos do rio Douro – que corre proximo ao S.
    […]
    O povo rude d’estes sitios, attribue esta construcção a arte diabolica, e de paes a filhos tem passado a seguinte lenda:
    Em tempos antigos, era tudo por estes sttios barrancos e pricipicios medonhos, sem haver um atalho sequer.
    Sobre o ribeiro, não havia ponte, nem cousa que, mais ou menos rudimentarmente a substituisse.
    Em uma noite, veiu aqui ter um viandante, a cavallo; e, como tivesse urgente necessidade de continuar a sua jornada, e isso lhe fosse absolutamente impossivel, no meio da sua desesperação, pediu a Deus e ao diabo que lhe valessem em tão apertada conjunctura.
    Foi o diabo que appareeeu ao reclame, e lhe disse:
    «Se me deres a tua alma, antes que cante o gallo preto, te darei uma ponte, para atravessar o ribeiro, e uma estrada, para seguires a tua viagem sem o minimo perigo.»
    O cavalleiro acceitou, e Satanaz poz logo mãos á obra; mas quando o infernal pedreiro conduzia as duas ultimas pedras da guarda da ponte, canta o gallo preto, e o homem pôde atravessal-a e seguir seu caminho sem comprometter a sua alma.
    A unica desforra que pôde ter o diabo, foi atirar para longe as duas pedras, e fugir para o seu tenebroso reino.
    Ainda hoje, qualquer pessoa d’esta terra, mostra na ponte o sitio onde deviam ser collocadas as duas ultimas pedras.

Fonte Biblio PINHO LEAL, Augusto Soares d'Azevedo Barbosa de Portugal Antigo e Moderno Lisboa, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 2006 [1873] , p.Tomo VII, p. 114

Place of collection Poiares, FREIXO DE ESPADA À CINTA, BRAGANÇA

Narrativa

When XIX Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

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