Pombal (2)

APL 3394

Fallando da Senhora do Cardal, do forno e da Fogaça, diz o padre Carvalho, na sua Chorographia.

    «Está situada (a ermida) em um rocio, a que chamam o Cardal, pela quantidade de cardos que produzia; e junto a elle, mais chegado á villa, para o sul, estava um edificio velho, a modo de uma torre, que era casa e vivenda dos moradores d’esta villa, e pelo magestoso e antigo d’elle, mostrava nobreza em seus possuidores.
    Em esta torre ha tradição que vivêra uma D. Maria Fogaça, a qual nunca casou; e, porque o povo não tinha ainda muitas ermidas, para que esta devota, com menos detrimento, podesse ouvir missa todos os dias, mandou fazer uma capella no dito sitio, afastada da torre, para o norte, vinte passos, e n’ella collocou a imagem de Nossa Senhora de Jerusalem; o que se vê ainda hoje em as armas, que estão no tecto da abobada da capella, que são da familia dos Fogaças.
    Teve sempre este povo a dita imagem em muita veneração, até que, passados annos (diz a tradição) mandou Deus, por peccados dos homens, a esta terra, tão grande multidão de gafanhotos e lagartas, que as gentes, pelas ruas, andavam attonitas, por se juntarem em nuvens tão densas (os gafanhotos) que impediam aos homens a vista.
    Fizeram os seus primeiros empregos e damnos, em as cearas, que, como era no fim de maio, foram de muita consideração, destruindo as arvores de tal modo, que ficaram infructiferas por alguns annos; e a tanto chegou este castigo, que até pelas casas havia cuidado em se taparem os potes da agua, e occultarem os mantimentos, para não serem tocados d’esta praga.
    Vendo-se pois o povo n’esta afflição, por ordem da camara, se juntaram todos, um sabbado, e foram á egreja de S. Pedro (que era então a matriz da villa) e alli, com o parocho, ajustaram em o melhor – que foi, ordenar procissão de preces; e sahindo da dita egreja, se vieram recolher á ermida do Cardal, rogando a Nossa Senhora, fosse sua intercessora, para que Deus os livrasse de um tão grande trabalho.
    E depois de se dizer missa, em o altar d’ella, publicamente, prometteu o parocho à Senhora, em nome da camara e mais povo, de lhe fazerem festa em o dia que os livrasse de tal afflicção.
    Foi Deus servido, que, em amanhecendo no dia seguinte, ficasse o povo livre da referida praga, e as cearas e arvores, ainda que roidas, dessem algum fructo.
    Foi este milagroso successo, no ultimo domingo de junho.
    Alvoroçado o povo, e cheio de grande contentamento, não cessava de vir a esta ermida, e dar graças á Senhora, por cuja intercessão foram livres; e, logo no dia seguinte se lhe disse missa cantada, e se fez procissão, em acção de graças.
    Em o seguinte anno, tomou por sua conta, a festa, D. Maria Fogaça, senhora da capella; que a fez com grande dispendio, e á qual vieram assistir pessoas nobres, seus parentes, das villas de Thomar e Santarem e mandou fazer a offerta que se devia ao parocho, que foram dois bolos, de farinha de trigo, os quaes ella mandou coserem um forno, e que, por serem demasiadamente grandes, succedeu ficarem tortos; o que, vendo um homem, creado da casa (de D. Maria) se atreveu, em nome da Senhora de Jerusalem, a entrar no forno a concertal-os; e sahindo de dentro, sem lesão alguma, se admiraram todos do novo prodigio que a Senhora obrava.»

Fonte Biblio PINHO LEAL, Augusto Soares d'Azevedo Barbosa de Portugal Antigo e Moderno Lisboa, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 2006 [1873] , p.Tomo VII, pp. 134-135

Place of collection Pombal, POMBAL, LEIRIA

Narrativa

When XIX Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

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