Ponta da Má Merenda

APL 1318

Durante os primeiros anos do século dezassete, no tempo do domínio filipino, havia na Terceira um fidalgo que tinha uma filha moça, em idade casadoira. Tinha-se apaixonado por um jovem trabalhador, contra a vontade do pai, que queria que ela casasse com um fidalgo já velho.
 O rapaz resolveu embarcar à procura de fortuna, pensando que, se fosse rico, o fidalgo não se ia opôr ao casamento dele com a filha. No entretanto o fidalgo foi forçando a rapariga a casar com quem ele desejava, mas a jovem, que não tinha esquecido o rapaz, recusou-se a aceder à vontade do pai.
 O fidalgo, ofendido e irritado pela desobediência da filha, castigou-a, mandando-a presa para um forte que havia numa ponta, na Praia. Aí a rapariga viveu isolada de todos, alimentada apenas a pão e água, segundo determinação do pai.
 A jovem fidalga era frágil. O sofrimento e a alimentação que lhe davam, que não passava de uma má merenda, levaram-na a um estado de fraqueza tal que não resistiu muito tempo. Sentindo a morte próxima, pediu para ser sepultada no lugar onde tinha vivido os seus últimos tempos por obrigação. O seu último desejo foi cumprido.
 Passado algum tempo, o rapaz voltou e, ao saber da tragédia, ficou muito degostoso e recolheu-se ao convento.
 Muitas vezes se ia sentar na ponta onde a amada tinha sido encarcerada e sepultada. Não viveu também muitos anos e, quando morreu, foi enterrado junto da fidalguinha, como tinha pedido, para que ficassem unidos na morte, já que na vida os tinham separado.
 Ainda hoje, quando o mar está bravo, se ouvem os lamentos dos dois amantes e, em dias de calmaria, podem-se escutar as suas vozes, falando baixinho, naquele lugar da Praia que passou a chamar-se Ponta da Má Merenda, em lembrança do sofrimento dos dois infelizes jovens e, principalmente, da má merenda que o pai impôs à filha, levando-a à morte.

Fonte Biblio FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.148

Place of collection Praia Da Vitória (Santa Cruz), PRAIA DA VITÓRIA, ILHA TERCEIRA (AÇORES)

Narrativa

When XVII Century, 10s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications