Quem vai, vai; quem está, está...

APL 841

Uma noite, um homem voltava para casa com uma carga num burro. Quando chegou ao pé da ponte… estava um homem debruçado (na ponte) e nesse mesmo sítio caiu a carga no chão. O dono do burro, aflito, pediu ao homem que estava debruçado na ponte para o ajudar a carregar o burro, que ele não era capaz sozinho:
 — O senhor, ajude-me aqui a carregar o meu burro!
 Nada! Não respondeu. 
 — O senhor, ajude-me a carregar o meu burro, pelas cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo!
 — Foi o que lhe valeu, foi pedir pelas chagas de Nosso Senhor, senão era já aqui morto! 
 Quando passou com a corda sobre a carga do burro, tocou-lhe numa mão que estava muito fria.
 — O senhor tem as mãos muito frias!
 — Pudera! Morto há trinta anos, não posso ter as mãos quentes. 
  O homem ficou em estado de choque; agarrou-se ao rabo do burro e foi ele que o guiou até casa. Ficou uns dias doente, sem sequer poder falar. Só quando melhorou é que a família soube o que se tinha passado. A alma penada disse-lhe:
 — Para a outra vez, quem vai, vai; quem está, está!
 A hora da noite é hora má. Nunca se deve dar fala a desconhecidos que se encontrem. Segue-se o caminho e não se diz nada.

Fonte Biblio VILHENA, M. Assunção Gentes da Beira Baixa Lisboa, Colibri, 1995 , p.104-105

Place of collection-, PROENÇA-A-NOVA, CASTELO BRANCO

InformanteDeolinda Bárbara dos Santos (F), 72 y.o., - (PROENÇA-A-NOVA) CASTELO BRANCO,

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications