São Sebastião de Escalos de Baixo

APL 668

Boa, a nossa gente, a gente da Beira Baixa, crente e firme em sua fé, não desespera; e se a sua actividade não chega para resolver as dificuldades que a luta pela vida ou acontecimento inesperado lhe deparam, eleva sua alma para Deus ou para os Santos na esperança de que poder sobrenatural opere o milagre.
 Escalos de Baixo, povoação dos arredores de Castelo Branco, atravessada pela estrada e influenciada diariamente pelos modernos elementos de desenraizamento etnográfico e destruição e abastardamento de velhos costumes, tem sabido resistir, pelas suas almas boas, aferradas ao seu torrão (nenhum, para eles, há melhor) à onda rasante das suas famosas tradições.
 Com um lindo folclore e velhas costumeiras, vive ali, em especial ambiente de devoção, a festa de São Sebastião.
 Pessoas idosas explicam-lhe assim as origens:
 Na memória dos homens de Escalos vivia como verdade incontroversa que, sempre que peste ou malina assolava os seus campos, ou atacava pessoas ou animais o Mártir Santo os protegia, afastando-as, para longe. Neste ambiente de fé e confiança, chegou um dia a notícia, trazida por pastores que nos contrafortes do Ponsul apascentavam os seus rebanhos, que os franceses vinham a caminho de Escalos e que breve ali estariam.
 Já de véspera constara, noticia dada não se sabe por quem, que as hostes de Napoleão se encontravam em Alcântara dispostas a entrar em Portugal para o conquistarem e dividirem segundo a omnipotente determinação daquele cabo de guerra.
 A povoação estava em sobressalto e, por isso, mulheres, velhos e crianças, mal esta última informação chegou, correram a levá-la aos ranchos que nos olivais procediam à apanha da azeitona.
 Breve, todos recolheram a suas casas, procurando umas armas para a resistência e empregando-se outros em esconder os seus melhores haveres.
 Entre foices, machados, velhos arcabuzes, e espingardas de pederneira, forquilhas ou simples varapaus, ao discutirem o caminho a seguir, varão sisudo e temente a Deus, tomando a palavra, assim falou: — A omnipotência divina é sem limites! Deus é que determina tudo o que vai pelo Mundo! Só o que Ele dispuser se cumprirá! Que vamos nós fazer contra a força de um grande exército! Peguemo-nos com o nosso Mártir São Sebastião, que tantas vezes nos tem acudido, e Ele nos salvará!
 E a povoação, aceitando o conselho, e, sinceramente fiel à sua velha devoção pelo Mártir Santo, prometeu-lhe festa rija, a maior de todas, se Ele a livrasse da invasão que se anunciava.
 O dia, que amanhecera invernoso, de cariz carregado, foi-se, cada vez mais, escurecendo; e à medida que o tempo corria na sua rota interminável, mais os corações e as almas se confrangiam e apertavam!
 A tarde ia em mais de meio, e a sombra da noite apavorava os escalenses!
 Nisto, do lado do Sul, por onde os franceses deviam entrar, começou a avançar densa neblina. Encobrindo primeiro os crutos das árvores, rodeando em seguida os cabeços, breve o horizonte se fechou; e, antes que de todo escurecesse, Escalos de Baixo estava envolvida por impenetrável nevoeiro!
 Chegou a noite!
 A ansiedade avolumava-se nos peitos oprimidos! Pela madrugada, foragidos de Castelo Branco e Alcairis, povoações aquém de Escalos, anunciavam ter ali chegado na véspera, à boca-noite, esfomeados e andrajosos, os franceses, e praticado toda a casta de latrocinios e desmandos.
 A noticia, rapidamente conhecida, ergueu todo o povo em hossanas a S. Sebastião, que assim, mais uma vez, operara o milagre de o livrar de grave desacato.
 Festa rija, a maior de todas, — estava prometido — festa rija se faria todos os anos!
 E por isso, festa rija, de todas a maior, tem feito e continua a fazer a povoação de Escalos de Baixo, ao Mártir São Sebastião, para lhe agradecer a sua santa protecção e para lhe continuar a pedir, e não apenas para si mas para todos os portugueses, abundância, saúde e paz:

— Mártir São Sebastião!
Estais voltado à Serra,
Livrai Portugal
De fome, peste e guerra!

Fonte Biblio DIAS, Jaime Lopes Contos e Lendas da Beira Coimbra, Alma Azul, 2002 , p.88-91

Place of collection Escalos De Baixo, CASTELO BRANCO, CASTELO BRANCO

Narrativa

When XX Century, 50s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications