Senhora dos Navios ou Senhora dos Piratas

APL 1415

Era o início do ano de mil seiscentos e setenta e dois. Naquele tempo os Açores e principalmente as ilhas mais isoladas e desprotegidas, como era o caso das Flores, eram frequentemente atacados por piratas, que deixavam atrás de si dor e destruição e pilhavam tudo o que havia, desde os bens de consumo até ao ouro e outros objectos ricos das casas e Igrejas.
 Aquele dia de Janeiro tinha amanhecido bom, bom demais para a época do ano que corria. As pessoas de Santa Cruz andavam pelas ruas e pelos campos nos seus trabalhos habituais. A certa altura começaram a ver aparecer, ao longe, no horizonte, navios e mais navios, que pouco a pouco se foram aproximando de terra. Contaram ao todo vinte e sete. O povo começou a correr pelas ruas, aflito, sem saber o que fazer, adivinhando que não podiam ser senão piratas e prevendo a desgraça que estava para lhes cair em cima.
 Por fim a enorme frota holandesa foi ancorando na enseada de S. Pedro. Em terra já se ouvia o chapinhar dos remos dos pequenos barcos que tinham sido lançados ao mar para trazer os piratas para terra e o latir dos cães ferozes que seriam lançados sobre as pessoas. O povo do lugarejo, que era muito pouco e não tinha forças nem meios para lutar e se defender e aos seus bens, tinha-se reunido com o padre, na Igreja da Conceição, para rezar. Tinham muito medo, mas também muita fé e, pegando na pequena imagem de Nossa Senhora, saíram todos em procissão, para o lado em que os piratas iam entrar. As pessoas rezavam e suplicavam:
 — Senhora da Conceição, valei-nos! Tende piedade de nós!
 Quando iam a chegar à Boca da Ribeira e os piratas estavam quase em terra, de repente e milagrosamente o tempo mudou. Veio uma forte chuvada, levantou-se uma grande ventania e o mar, até então manso como azeite, logo começou a levantar-se em ondas enormes que ameaçavam despedaçar os piratas de encontro aos rochedos da costa.
 Os piratas remaram o mais depressa que puderam para os navios e logo levantaram âncora para evitar que ali ficassem todos em pedaços. Singraram pelo mar fora e nunca mais voltaram às Flores.
 O povo chorou de alegria e agradeceu a Nossa Senhora a sua ajuda. No ano seguinte e em todos os anos até há bem pouco tempo, o povo de Santa Cruz fazia uma procissão com Nossa Senhora, que passou a ser conhecida por Senhora dos Navios ou Senhora dos Piratas. O cortejo saía da igreja da Conceição, atravessava as ruas da vila e ia até ao Canto de S. Pedro. Era a procissão da Senhora dos Navios.
 A imagem da Senhora dos Navios, antiga e pequenina, ainda lá está, não em altar próprio, mas na sacristia da Igreja da Conceição.

Fonte Biblio FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.264-265

Place of collection Santa Cruz Das Flores, SANTA CRUZ DAS FLORES, ILHA DAS FLORES (AÇORES)

Narrativa

When1662

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications