Um salto para trás, mas sem olhar

APL 1373

Um homem de S. Jorge vinha para casa, uma certa vez, à boquinha da noite, com o carro de bois carregado de lenha. Como vinha de longe e o caminho era mau, apesar de já ser tarde, estava sentado na entrada de uma furna enquanto os bois descansavam.
 Pôs-se a afiar um pau com uma navalha, talvez a engendrar um brinquedo para um dos filhos. A navalha era para o homem do campo um objecto sem o qual não se podia passar. Tanto servia para enxertar uma parreira de vinha ou outra árvore de fruto, como para talher de refeição ou para fazer uma operação a um animal que ficava, quase sempre, passados poucos dias, são como um pêro.
 Entretanto uma galinha apareceu por ali e começou a andar à roda dele sem parar, esgravatando terra para cima dele e cacarejando com insistência.
 O homem foi ficando aborrecido, enxotou-a, mas ela não saía dali. Quando já estava farto, não fez mais barulho e, com a navalha, fincou a galinha.
 Ficou mesmo pasmado! Ela, ao ser picada, logo se transformou numa mulher nova e bonita que estava completamente nua. Quando o homem recuperou a serenidade, despiu o casaco e pôs-lho por cima. A mulher, que era feiticeira, disse que ele a havia ir levar ao Pico. O homem disse que não, que não podia, tinha a sua família e o que lhes ia dizer. Não tinha mesmo modo de a ir levar pois não tinha barco e nem sequer era homem do mar.
 A feiticeira pediu que ele lhe pegasse ao colo e desse um passo para trás, mas sem olhar. Ele, receoso e querendo ver-se livre de tal mulher, assim fez e, sem saber como, achou-se no Pico.
 — Agora é que vão ser elas para me apanhar em S. Jorge!
 Mas a mulher, agradecida, deu-lhe um bocado de fazenda da sua loja e disse que ele voltasse a dar um salto para trás, mas sem olhar. Seguindo o conselho dado pela feiticeira, lá estava ele em S. Jorge, ao pé dos bois e da carrada de lenha.
 Pôs-se a caminho de casa. Chegou e a mulher, ao ver o bocado de fazenda que ele trazia, ficou desconfiada e perguntou-lhe onde tinha ido buscar aquilo. O homem não lhe deu explicações pois sabia que se lhe contasse o segredo algum mal lhes viria por parte da feiticeira, que tinha o poder de adivinhar tudo.
 A mulher começou a desconfiar que ele tinha uma amante, passaram a desentender-se e a viver mal. Acabaram por separar-se, apenas porque o homem teve a má sorte de se ter cruzado com uma feiticeira.

Fonte Biblio FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.211-212

Place of collection-, VELAS, ILHA DE SÃO JORGE (AÇORES)

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications