Uma capa por barco

APL 1058

Uns referem-na como tendo acontecido quando Gonçalo era ainda criança, outros quando já era frade.
 O certo é que esta lenda prende-se com a forma que Gonçalo encontrou para atravessar rio, talvez o Vizela, por negação de tal travessia por parte do barqueiro. Era costume — costume que se prolongou nalguns lugares até meados do século XX — naquele tempo existir um barqueiro para atravessar pessoas e até animais (porcos) ovelhas, cabras e de capoeira) em vaus onde as águas eram calmas e a travessia segura.
 Tendo seus pais saído para uma romaria— Gonçalo havia ficado a guardar o milho que secava na eira — e pensando que o seu menino não se ia aguentar com o prometido o pai, Gonçalo Pereira, recomendou ao barqueiro que se o filho aparecesse por aquelas bandas não o atravessasse, custasse o que custasse, sob pena de ter de se haver com ele no regresso.
 Ainda o barqueiro, cujo nome não reza a lenda, não tinha acabado de coçar o queixo já Gonçalinho, todo repioqueiro, lhe pedia para atravessar. Negação imediata do barqueiro; novo pedido; nova negação.
 Gonçalinho ficou pensativo; olhou para o céu, para o rio e para o barqueiro e, sem demora, tirou a capa que trazia pelos ombros, lançou-a à água, sentou-se nela e, com um cajadinho que sempre o acompanhava, remou até à outra margem, para espanto do barqueiro, que não queria acreditar no que estava vendo.
 Foi à festa, encontrou-se com os pais e voltou mais cedo com a desculpa de ter uns afazeres e atravessou o rio da mesma maneira: sentado na capa e a remar com o cajadinho.
 A outra versão remete-nos para Gonçalo já frade após a longa caminhada (tinha sido espancado e escorraçado pelo sobrinho) que encetou à procura de um lugar onde se abrigar. Encontrou um grande rio e, como não sabia muito bem se descê-lo ou subi-lo, atirou a capa para a água e onde ela parasse ali ficaria.
 Para seu espanto a capa, em vez de descer ao sabor da correnteza, começou a subir o rio vindo a parar junto de umas grandes fragas e a uma ponte em ruínas onde, no cimo, existia uma pequena orada em ruínas.
 O rio era o Tâmega. A orada era dedicada a Santa Maria de Amarante Maior que, depois de reconstruída, frei Gonçalo dedicou a N. S. da Assunção. Das instalações contíguas fez a sua casa onde viveu até se despedir dos vivos no dia 10 de Janeiro de 1259 (1262?).

Fonte Biblio PATRÍCIO, António Lendas de S. Gonçalo e de Amarante Amarante, Paróquia de S. Gonçalo, 2009 , p.26-27

Place of collection Amarante (São Gonçalo), AMARANTE, PORTO

Narrativa

When XIII Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications