Uma feiticeira que queria ser picada

APL 1310

As pessoas antigas de S. Sebastião, que trabalhavam campos de renda aos senhorios de Angra ou da Praia, pagavam com o produto das terras. Davam uns tantos alqueires de trigo por uns tantos alqueires de campo. Costumavam ir pagar as suas dívidas no tempo das ceifas e, muitas vezes, porque de dia tinham outros trabalhos, faziam a viagem de noite, em ronceiros carros de bois, que levavam horas e horas para chegar à cidade.
 O tio Romeiro, que também fazia umas terras de gente rica de Angra, ia uma vez pela Canada dos Moinhos fora, com o carro carregado de trigo para pagamento da renda. Era alta noite e estava muito escuro, mas os bois, habituados ao caminho, seguiam ronceiros e certos, arrastando o peso do carro, do trigo e do tio Romeiro, que ia sentado de aguilhada na mão, para encorajar os animais, de vez em quando, com uma picada ligeira.
 A certa altura da canada, começou a aparecer uma luzinha nos canzis da canga e os bois espantaram-se um pouco. O tio Romeiro estranhou aquilo e, com a aguilhada, procurou picar a luzinha. Virava a aguilhada um pouco mais para a direita, depois mais para a esquerda, empurrava-a para diante ou puxava-a ligeiramente para trás, mas nada. A luzinha escapava-lhe sempre, quando estava mesmo quase a tocar-lhe, como se estivesse a provocá-lo. Já estava farto e, duma certa vez, foi com mais força e trancou a luz com o bico afiado da aguilhada.
 Como por encanto, no mesmo instante uma mulher caiu no caminho em frente dele, ficando em pé, toda nua e a sangrar ligeiramente de um ombro. Se já estava espantado com o aparecimento da mulher, ainda mais espantado ficou quando viu que aquela feiticeira não era mais nem menos do que a nobre senhora da cidade, dona das terras que ele trabalhava em S. Sebastião.
 A mulher pediu ao homem para ele não contar o que tinha acontecido a ninguém e disse-lhe ainda:
 — Se me deitares em casa antes do sol sair, pra que ninguém me veja, perdoo-te a renda. Voltas pra casa com o trigo todo que levas aí pra me pagar.
 O tio Romeiro concordou, ainda embasbacado pela surpresa. Tirou as calças e a camisa de pano da terra e deu-as à mulher, que se vestiu, e sentou sobre o carro de bois. O homem, vestido só de ceroulas e camisa de meia antiga, picou os bois por ali abaixo, depressa, para chegar à cidade antes de amanhecer.
 E conseguiu. Ainda era noite escura, quando o tio Romeiro parou à porta da casa apalaçada, onde a mulher desceu. O homem voltou para trás, contente com o trigo, mas sempre a pensar no que se tinha passado. A dona das terras, que tinha provocado aquele encontro para ser picada e se livrar da sina de feiticeira, conseguiu o que queria, mas ficou para o resto da vida com uma cicatriz no ombro a lembrar-lhe, a sina por que tinha passado.

Fonte Biblio FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.139-140

Place of collection Vila De São Sebastião, ANGRA DO HEROÍSMO, ILHA TERCEIRA (AÇORES)

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications