Uma namorada que era feiticeira

APL 1421

Há uns anos atrás havia um rapaz da Fajã Grande, nas Flores, que estava a namorar com uma rapariga órfã de pai e que vivia só com a mãe. Ele, depois de acabar o trabalho, lavava-se, mudava-se de roupa, ceava e ia fazer serão para casa da namorada. Falavam de tudo. Do que ia ser a sua vida, de como ia ser a sua casa e outras vezes contavam histórias. Um dia, começaram a falar de feiticeiras. O rapaz ria e brincava:
 — Feiticeiras!? Agora... Quem me dera ver uma!
 — Não digas que não há, olha que é certo! — insistia a rapariga.
 — Sim, sim… tu é que és a minha feiticeira! — concordava o rapaz para não discutirem.
 No entretanto o tempo ia passando. Chegada a hora, o rapaz despediu-se e saiu para o escuro da noite. Quando já tinha andado um bocado de caminho e estava quase a chegar a casa, duas cabras saíram dum pátio e deram um salto para a frente dele.
 — Ó diabo, pois eu fui deitar vocês na rocha, vocês até agora nunca saíram de lá e como é que estão aqui?! — disse o rapaz, julgando, com o escuro, que eram as suas duas cabrinhas.
 Tentou apanhá-las para as amarrar, mas, os animais, que eram habitualmente mansos, davam um salto e ficavam adiante e ele não conseguia pôr-lhes a mão. Já estava a ficar aborrecido e, como estava ao pé do portão de casa, pegou num buxeiro que era do pai e estava ali ao pé da parede. Passou-o a uma das cabras, fincou-lhe a pele, fez-lhe sangue e logo ela se transformou na namorada. O rapaz não podia acreditar no que via e disse:
 — Oh! vai-te com o diabo!... E olha que é verdade que há mesmo feiticeiras. E logo quem... Vai-te embora que não quero mais saber de ti!
 — Não, não é assim, tu tens que me ir pôr em casa! — respondeu a rapariga decidida...
 O rapaz teimou que não ia, que o que queria era vê-la longe, que nunca mais punha os pés em casa dela. Mas, por fim, não teve remédio senão concordar. Ela então disse-lhe:
 — Vira-te para trás!
 Ele virou-se e ficou logo à porta da casa da rapariga. Voltou para sua casa e todo o caminho veio maldizendo a sua vida e o que lhe havia de ter acontecido. Nunca mais quis saber de tal mulher, mas ela perseguia-o sempre e assim aconteceu até ao fim da vida.

Fonte Biblio FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.270-271

Place of collection Fajã Grande, LAJES DAS FLORES, ILHA DAS FLORES (AÇORES)

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications