Vale da Matança — Rio Ponsul

APL 646

A luta ia renhida. De encontro à resistência heróica quase sobre-humana, dos destemidos habitantes da Lusitânia, desfaziam-se grandes legiões comandadas pelos melhores generais romanos.
 A cuidada preparação dos legionários e à sistemática instrução que, quer no manejo das armas quer em exercícios atléticos, lhes era ministrada na Urbs, antepunham os lusitanos o seu grande amor ao torrão natal auxiliados pela defesa natural que as sinuosidades do terreno lhe proporcionavam, pela sobriedade na comida e no vestuário, e pela força indómita de quem, acima de tudo, quer viver independente e livre.
 O povo de que descendemos soube e pôde assim quebrar, durante anos, os ímpetos do maior exército do mundo, infligindo-lhe por vezes derrotas sanguinolentas.Vieram legiões, partiram legiões sem que conseguissem levar ao Forum a grata noticia da submissão das tribos da Lusitânia.
 Roma viveu dias de pânico, chegando mesmo a recear pelo resultado final!

 Corriam os primeiros anos do segundo século antes de Cristo. A cidade da Egitânia (Idanha-a-Velha) caíra em poder dos romanos.
 Dentro e fora das muralhas ia uma vigilância aturada: dentro, a dos romanos a prepararem-se para novas surtidas, fora, a dos lusitanos, esperando, através de constantes e duras vigílias, o momento azado para lhes inutilizar a acção.
 O Pro-cônsul romano resolveu infligir um severo castigo aos audaciosos lusitanos, cujo atrevimento chegara ao ponto de irem, ali mesmo, ás portas da cidade, espreitá-lo e desafiá-lo.
 Para isso dirigiria ele próprio a surtida ao campo inimigo. E, de facto, marchando como para triunfo certo, saiu por uma das portas da cidade à frente das suas tropas.
 Os soldados lusitanos que próximo, por entre os densos matagais, o espreitavam, fremiam de raiva. A superioridade do inimigo era manifesta, mas, aprestados os escudos e enrijados os músculos, enquanto os legionários avançavam, aproximavam-se os lusitanos da estrada. Estão quase à mão! Mais um momento! Como feras, como gigantes, aquele punhado de heróis, de valentes caiu à cutilada, à machadada sobre os invasores. A luta foi dura, sobretudo porque era desigual.
 Muitos pagaram com a vida o seu indómito espírito de independência, a sua devoção patriótica, mas no campo inimigo a mortandade foi tal que, desde então, para se continuar até hoje, o local, pequeno vale entre a estrada e o rio, ficou conhecido pelo Vale da Matança.
 Mal ferido, entre as vascas da agonia, o Pró-cônsul, que a custo se arrastara até junto da água, exalou ali o último suspiro. (1)
 Do facto — reza a tradição — ficou ao rio o nome de Pro-cônsul para, com o andar dos tempos, se chamar, como ainda hoje se chama, Ponsúl.
 
(1) O povo diz que o cadáver do Pro-cônsul seguiu para Roma envolvido em mel, dentro de um odre de pele de boi.

Fonte Biblio DIAS, Jaime Lopes Contos e Lendas da Beira Coimbra, Alma Azul, 2002 , p.30-32

Place of collection Idanha-A-Velha, IDANHA-A-NOVA, CASTELO BRANCO

Narrativa

When XX Century, 50s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications