Vela Latina

APL 1355

Era o primeiro dia de Maio de mil oitocentos e oito. Um violento abalo de terra foi sentido com grande força em toda a ilha de S. Jorge, em consequência da erupção de um vulcão no lugar das Lagoinhas, junto à serra que ficava perto da freguesia da Urzelina.
 Uma ribeira de lava desceu a encosta, cobrindo terrenos, casas e todos os haveres das pessoas que fugiam desorientadas, de um lado para o outro, sem saberem o que fazer. Alguns, que se demoraram a separar-se das suas casas e pertences, morreram sufocados pelos gases e vapores de enxofre.
 A lava ia avançando, engolindo tudo na sua passagem. Até mesmo a igreja da Urzelina desapareceu quase toda.
 Mas ao chegar ao terreno onde estava uma rês vacaril destinada a um bodo do Divino Espírito Santo, a maré de fogo líquido afastou-se e voltou a unir-se mais abaixo, deixando o animal a pastar calmamente naquele local, sem que nada lhe acontecesse.
 Dias depois a ribeira de fogo deixou de correr e, no centro do grande deserto de lava e areia, na encosta, via-se um terreno verdejante de forma triangular.
 Os anos foram passando. Nos mistérios de pedra queimada começaram a crescer faias, incenso, pinheiros e, encravado nessa mata, destacava-se um terreno lavradio triangular, como a vela latina usada nas embarcações que cruzavam o canal.
 Passaram então a chamar Vela Latina ao terreno lavradio que tinha resistido à violência, do vulcão de mil oitocentos e oito por milagre do Espírito Santo.
 Hoje a Vela latina, que resistiu à fúria da lava, já não é terra lavradia, mas ainda se pode distinguir na paisagem um triângulo coberto de eucaliptos.

Fonte Biblio FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.191-192

Place of collection Urzelina (São Mateus), VELAS, ILHA DE SÃO JORGE (AÇORES)

Narrativa

When1808

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications