Viseu (Lenda de D. Ramiro)

APL 3469

D. Ramiro II, rei das Asturias e de Leão, que reinou desde o anno de 931 até o de 950, n’uma excursão que fez de Viseu, onde então residia, por terras de moiros, viu e enamorou-se da formosa Zahara, irmã de Alboazar, rei moiro, ou alcaide do castello de Gaia sobre o rio Douro.
    Recolheu-se D. Ramiro a Viseu com o coração tão captivo, e a razão tão perdida, que sem respeito aos laços, que o uniam sua esposa D. Urraca, ou, como outros lhe chamavam, D. Gaia, premeditou e executo: o rapto de Zahara.
    Emquanto o esposo infiel se esquecia de Deus e do mundo nos braços da moira gentil, n’um palacio á beira mar, o vingativo irmão de Zahara, trocando affronta por affronta, veiu de cilada, protegido pela escuridão de uma noite, assaltar e roubar nos seus proprios paços a rainha D. Gaia.
    A injuria vibra n’alma de Ramiro o ciume e o desejo de vingança.
    O ultrajado monarcha vôa á cidade de Viseu, escolhe os mais valentes d’entre os seus mais aguerridos soldados, e lá vae á sua frente caminho do Douro.
    Chegando á vista do castello d’Alboazar, deixa a sua cohorte occulta n’um pinhal, e disfarçado em trajos de peregrino, dirige-se ao castello, e por meio de um annel, que faz chegar às mãos de D. Gaia, lhe annuncia a sua vinda.
    O peregrino é introduzido immediatamente á presença da rainha, que fica a sós com elle. Alboazar tinha ido para a caça. D. Ramiro atira para longe de si as vestes e as barbas, que o desfiguravam, e corre a abraçar a esposa. Esta porem repelle-o indignada, e lança-lhe em rosto a sua traição.
    No meio de um vivo dialogo de desculpas de uma parte, e de recriminações da outra, volta da caçada Alboazar. D. Ramiro não póde fugir. Já se sentem na proxima sala os passos do moiro. A rainha, parecendo serenar-se, occulta o marido n’um armario, que na camara havia. Mas apenas entrou Alboazar, ou fosse vencida d’amor por elle, ou cheia d’odio para com o esposo pela fé trahida, abre de par em par as portas do armario, e pede vingança ao moiro contra o christão traidor.
    D’ahi a pouco era levado el-rei D. Ramiro a justiçar sobre as ameias do castello. Chegado ao logar da execução pediu o infeliz, que lhe fosse permitido antes de morrer despedir-se dos sons accordes da sua buzina. Sendo-lhe concedida esta derradeira graça, D. Ramiro empunha o instrumento, e toca por tres vezes com todas as suas forças.
    Era este o signal ajustado com os seus soldados, escondidos no proximo pinhal, para que, ouvindo-o, lhe acudissem apressadamente. Portanto n’um volver d’olhos foi o castello cercado, combatido, tomado, e depois incendiado. A desprevenida guarnição foi passada ao fio da espada, e Alboazar teve a sorte dos valentes: – expirou combatendo. E D. Gaia, como ao passar o Douro para a margem opposta, se lastimasse e mostrasse dôr, vendo abrazar-se o castello, foi victima tambem do ciume de D. Ramiro, que cego d’ira a fez debruçar sobre o bordo do barco, cortando-lhe a cabeça de um golpe d’espada.
    A fortaleza em ruinas ficou o povo chamando o castello de Gaia, e á margem do rio, onde aportou o barco do D. Ramiro, deu-lhe o nome de Miragaia, em memoria d’aquelle fatal mirar da misera rainha.

Fonte Biblio PINHO LEAL, Augusto Soares d'Azevedo Barbosa de Portugal Antigo e Moderno Lisboa, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 2006 [1873] , p.Tomo XII, pp. 1674-1675

Place of collection Miragaia, PORTO, PORTO

Narrativa

When X Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications