Zebreira

APL 3473

Em 1841 no monte (aldeia) de Toulões um lobo no espaço de dois mezes devorou muitas pessoas, a primeira das quaes foi uma rapariga de 16 annos. Da pobre victima apenas se encontrou o craneo com alguns cabellos e os pés já corroidos.
    Das muitas pessoas que a fera acommetteu apenas poderam salvar-se dois homens. A um d’elles deu-lhe tal dentada que lhe arrancou metade dos ossos do craneo, os medicos porém conseguiram substituir aquella parte da caixa craneana por um casco de botelha?!... E assim viveu ainda mais de 20 annos, sempre com saude e como se nada tivera soffrido?!...
    Emquanto a fera se entretinha com aquelle infeliz, um companheiro d’elle pôde subir para uma arvore milagrosamente, pois o lobo com um salto ainda lhe apresou o gabão que levava sobre os hombros e o fez em tiras. Entretanto o homem gritou e acudiram differentes pessoas que afugentaram a fera e salvaram aquelles dois infelizes.
    O lobo era mais que matreiro!
    As auctoridades do concelho tomaram energicas providencias. Mandaram envenenar carne e espalhal-a pelos campos e montes; fizeram monterias; pagaram a caçadores destemidos que esperaram a fera em aguardos proprios, collocando diante d’elles como negaça ou chamariz alguns rapazes; mas o maldito lobo nunca appareceu nem cahiu nos laços. O povo já dizia que não era lobo, mas o peccado, e em tão grande consternação e afflicção recorreram ao patrocinio de Santo Antonio e prometteram festejal-o todos os annos, se os livrasse da maldita fera. E, ou fosse acaso ou milagre, é certo que feito o voto o lobo não mais appareceu nem se registraram mais victimas.
    Passados dias encontraram-se 3 lobos mortos, talvez por haverem comido a carne envenenada, mas o povo convenceu-se de que só devia a Santo Antonio, orago de Toulões, o desapparecimento da fera. Tractou do cumprir o voto e até hoje (1889) tem festejado o thaumaturgo todos os annos.

Fonte Biblio PINHO LEAL, Augusto Soares d'Azevedo Barbosa de Portugal Antigo e Moderno Lisboa, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 2006 [1873] , p.Tomo XII, pp. 2089-2090

Place of collection Zebreira, IDANHA-A-NOVA, CASTELO BRANCO

Narrativa

When XIX Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications