APL 2784 Lenda de João Serrão

Às recordações velhinhas da nossa gente e da nossa terra, fui arrancar esta história que bem pertence ao passado, mas que também parece prolongar-se no futuro, tal como as imagens reflectidas num espelho dão uma sensação perturbante de infinito…
E que é a saudade, afinal de contas, senão um puro, um límpido, um milagroso espelho de cristal?
 
Segundo reza a tradição popular, João Serrão foi um dos fidalgos mais valentes e mais nobres que as páginas da História registam. Sempre na vanguarda, arrostando com perigos de toda a espécie, vencedor de muitas lutas difíceis, João Serrão ligou o seu nome às sagas aventurosas dos fidalgos portugueses na Índia distante e enigmática…

Um dia, João Serrão voltou à sua terra. Era novo ainda — mas trazia o corpo cansado de combates e a alma ansiosa por um merecido descanso.
Encontrou então uma jovem e nobre donzela, Guiomar de nome, por quem se apaixonou com todo o ardor do seu coração virgem de amores. E logo que conseguiu falar com a jovem, confessou-lhe impetuosamente:
— Guiomar, quero-vos para minha esposa… De hoje em diante, sereis a luz dos meus olhos… A dama única por quem lutarei!
A donzela sentiu-se tremer, diante de tanta ousadia.
— Quão impulsivo sois!... Mal nos conhecemos ainda…
E em tom de confidência, num reflexo do que lhe ia na alma, acrescentou:
— Deveis ter visto… e amado, por certo, muitas mulheres…
João Serrão encheu o peito de ar antes de responder. E declarou, num sincero desabafo:
— Muitas vi, na verdade... Mas nenhuma delas consegui amar!
Olhou-a de frente. Olhos com olhos. Corações batendo mais forte.
— Estava guardado para vós, acreditai!
Ela ruborizou-se. Baixou os olhos. A sua voz tremeu. Toda ela tremeu.
— Pois… diz-me o coração que devo acreditar…
E, tornando-se de súbito mais enérgica, rematou, num misto de ternura e de autoridade:
— Oxalá que não olvideis as vossas promessas de aqui ficar junto mim partindo na primeira aventura para que vos convidem!...
As mãos de João Serrão correram a prender as mãos da sua bela-amada.
— Não, Guiomar... Eu estarei sempre e apenas onde vós estiverdes!
E diz-se de geração em geração que o casamento de Guiomar, a jovem bela e nobre, com João Serrão, o herói aventureiro de tantas lutas, foi o mais falado daquelas redondezas, em todos os tempos dos tempos…
Vieram gentes de perto e de longe. Acenderam-se fogueiras nas ruas. Bailou-se durante muitos dias e muitas noites…
Depois... Depois começou a felicidade de João Serrão e de Guiomar. Felicidade feita de desejo e de amor, de volúpia e de compreensão, de sonho e de realidade. Idílio encantador que durou uns cinco… uns seis… talvez mesmo uns oito dias!

Ao cabo desse tempo, porém, na estrada quieta e vazia, soou um cavalo em doida correria. E o cavalo estacou diante da porta da casa de João Serrão. E do cavalo saltou um homem açodado e impaciente.
— Preciso falar-vos sem demora.
João Serrão e Guiomar olharam-no, perplexos.
— Que há, cavaleiro? Podeis falar à vontade. Esta é minha esposa, Dona Guiomar.
O outro limitou-se a estender-lhe um pergaminho.
— Trago novas d’el-rei. Tomai!
Foi a vez de Guiomar falar. E falou numa voz que vinha mais do coração que do cérebro:
— Novas d’el-rei?... Más novas, com certeza… Diz-me o coração um triste pressentimento.
Houve uma pausa, enquanto João Senão abria e lia o pergaminho. Pausa de ansiedade. De lágrimas ainda choradas em silêncio. De mau presságio.
No final da leitura, João Serrão nem teve coragem de olhar a esposa.
— Bem… Sabei, senhora, que el-rei me convida para o acompanhar a África!
Guiomar deixou escapar uma pergunta, entre dois suspiros lamentosos:
— A África?... Lá tão longe?
Ele não soube que responder nem explicar. Mas o cavaleiro que trouxera a mensagem ajuntou então, à guisa de esclarecimento:
— Se mo permitis, dir-vos-ei que vai um entusiasmo enorme por todo o Reino... El-rei escolheu os seus melhores cavaleiros para essa expedição, que ficará na História para sempre!
Logo, João Serrão, com um fulgor estranho no olhar e na voz, ajuntou solenemente:
— E bem vale a pena que assim seja! É a Pátria e a Religião que temos de defender!
Mas, de súbito, num contraste evidente, o tom de sua voz mudou por completo para confessar, como que a medo:
— Eu... porém... Eu não poderei ir!
O cavaleiro da mensagem fitou-o. Com espanto. Mais do que espanto: com verdadeiro pasmo.
— Que dizeis?... Recusais o convite de el-rei?
Os olhos de João Serrão humedeceram-se. A sua voz também soou a lágrimas recalcadas.
— Fiz uma promessa, senhor... Uma promessa a minha esposa, a que não quero nem devo faltar, por tudo o que eu...
Mas ela interrompeu-o, inesperadamente. Inesperadamente e com vivacidade.
— Não vos apoquenteis por isso, senhor meu esposo!
Guiomar suspirou fundo. Uma vez. Duas vezes. E concluiu, tentando fazer forte a débil voz:
— Eu própria vos liberto da promessa que me fizestes... Ide! Ide, João Serrão, com el-rei, para terras de África... A Pátria e a Religião, como vós dissestes, assim o querem... Ide e que Deus vos proteja!
E, tal como se conta, João Serrão partiu de novo para a aventura da guerra...
 
Desta vez, porém, a sorte das armas foi-lhe adversa. Após combates violentos, impiedosos, João Serrão, apesar de toda a sua coragem, do seu ímpeto e da sua ousadia, caiu prisioneiro dos infiéis e, com muitos outros portugueses, foi atirado para as masmorras imundas de Fez.
Não mais se soube dele. Nem dos outros. Em Portugal deram-nos a todos por mortos e vestiram-se de luto por eles. Guiomar, a boa e doce e saudosa esposa, secou os olhos de tanto chorar...

Entretanto, lá longe, no cativeiro, João Serrão não perdia a sua fé em Deus. E, ao cabo de muitos e muitos anos de esperança e desespero, conseguiu arrastar consigo alguns companheiros numa fuga verdadeiramente audaciosa. Lutando contra os homens e contra a Natureza, andaram num batel ao sabor das ondas, na mais medonha das tormentas, até que alcançaram finalmente a costa de Portugal.
Mal podiam acreditar no que os seus olhos viram. Como tudo estar diferente!... Como eles tinham envelhecido!... Quantos anos se teria passado na tortura desse cativeiro infernal?...
Cada um dos sobreviventes da trágica aventura procurou desde logo reencontrar o lar que deixara há muitos e longos anos.
João Serrão, transformado agora num pobre e alquebrado mendigo, meteu-se também a caminho.
Era Sábado de Aleluia, segundo reza a tradição popular. Havia festa e alegria por toda a parte. Mas no peito de João Serrão havia apenas um coração chorando de saudade... Foi penoso e difícil, o regresso à terra onde deixara a esposa recém-casada. Andou por caminhos ásperos, ao deus-dará. Passou fome e desalento. Mas acabou por chegar…
 
E como um tímido, a medo, ele bateu à porta da sua antiga casa.
Lá dentro, ecoou a voz dum velho criado:
— Quem é?
Houve uma breve pausa. Depois a porta rangeu e o velho criado apareceu a espreitar.
— Ah, é um pobre pedinte…
Voltando-se para dentro, informou:
— Senhora… É mais um pedinte!
De dentro veio uma voz que João Serrão bem conhecia. Como essa voz estava diferente! Mais envelhecida, mais seca, mais amargurada…
— Mandai-o entrar, Pedro. Talvez ele tenha fome e precise de descanso.
Pedro, o velho criado, encolheu os ombros num ar de rabugice ao dizer ao mendigo:
— Entrai, então… É esse o desejo da dona da casa…
Quase chorando, João Serrão agradeceu entre dentes:
— Obrigado… Que o Céu vos pague!
E lentamente, arrastadamente, voltou a entrar na sua própria casa depois de tantos e tantos anos de ausência. Os seus olhos espantados pousaram em todos os móveis, em todas as recordações. A sua alma gritava-lhe que era impossível sofrer mais. O seu coração parecia saltar-lhe do peito, tão loucamente ele batia…
Por momentos, João Serrão teve a ideia de que ia morrer ali mesmo, de comoção. Mas o velho Pedro correu a ajudá-lo.
— Vamos... Porque não vos sentais?... Deveis estar muito cansado...
Com um suspiro profundo que valia como resposta, João Serrão acabou por sentar-se, serenando aos poucos, enquanto o velho Pedro ia dizendo:
— Não vos deveis admirar de que vos tratemos, assim... A senhora desta casa nunca fecha a porta a um pobrezinho... É uma santa alma e faz todo o bem que pode, para que a alma do marido repouse em paz!
Num impulso de coragem, João Serrão voltou-se para falar. Mas a voz embargou-se-lhe na garganta ao ver entrar a dona da casa.
Era aquela jovem e bela Guiomar que ele deixara? Santo Deus! Aquela senhora idosa, dobrada pela idade e pelo sofrimento, definhada pela dor?...
Quase sem olhar, ela colocou na mesa uma malga de sopa bem quente.
— Comei... Vai fazer-vos bem...
A custo, João Serrão conseguiu falar, numa voz demasiadamente trémula para que pudesse ser reconhecida:
— Agradeço-vos, senhora... mas não aceito... Quem passou o que eu passei perdeu o hábito de comer...
Ela suspirou e começou a limpar o pó aos móveis, como se o trabalho fosse uma fuga para os pensamentos que a torturavam.
— Tendes sofrido muito, não é verdade?
Ele concordou, meneando a cabeça toda branca e cofiando a grande barba que lhe tapava quase todo o rosto.
— Senhora, sim!... Sofri tudo o que um homem pode sofrer... Estive em Alcácer Quibir...
A velha senhora parou de repente e ficou hirta. Hirta e pálida. Pálida e arquejante.
— Por amor de Deus, não me faleis nesse nome amaldiçoado!
E, baixando a voz, num tom de reza, confidenciou:
— Foi lá que morreu o meu adorado esposo... Foi como se eu própria tivesse morrido também...
João Serrão tentou erguer-se e correr para ela, mas ficou preso ao lugar, sem forças para mais.
— Senhora...
Sem o olhar, sem o ver, Dona Guiomar persignou-se.
— Que Deus me perdoe e tenha a sua alma em descanso eterno!
Voltou a suspirar. Suspiro de saudade e de amor. Suspiro de resignação. E acrescentou:
— Ah!... Apenas minha filha tem conseguido dar-me alento para viver!
Os lábios do velho mendigo tremeram muito, antes de poder perguntar.
— Senhora... Tendes uma filha?
Só então, por lhe parecer estranho e inesperado o tom da pergunta, a velha senhora volveu os olhos para o mendigo. E declarou, nos restos sua antiga voz, tão doce, tão bonita, tão dolente:
— Sim, a mais bela filha que eu conheço! Foi a única recordação que ficou do nosso amor... De um casamento que durou somente oito dias… Mas a filha é o vivo retrato do pai... Quis Deus consolar-me assim!...
Dissera tudo isto de olhos em alvo, como quem se confessa. De sorriu. Sorriso feito de rugas. Sorriso de amargura, de tristeza.
— A mim, pouco me resta de vida! E agora, que ela já é mulher e vai casar em breve… eu... eu poderei partir para junto do meu marido! Eu quero...
Mas a sua voz calou-se de repente, ao ver o mendigo erguer-se e avançar para ela. E o seu coração emocionou-se ao ouvi-lo dizer, numa voz que era bem o eco do passado:
— Não! Não partireis... Eu não deixarei!
Boquiaberta, tremendo sentindo o céu e a terra rodarem em volta, num delírio de sentidos, ela ainda balbuciou:
— Mas... mas... vós...
Num assomo de energia, o velho mendigo endireitou-se e estendeu-lhe a mão esquerda, crivada de feridas mas onde ostentava ainda o anel do casamento.
— Olhai bem para mim, Guiomar... Sim, sou eu!... Vede e aliança… a nossa aliança, Guiomar!... Deus quis que eu voltasse... Aqui estou!
E chorando e rindo ao mesmo tempo, a velha senhora caiu de joelhos diante do marido.
— Oh, meu Deus, meu Deus!... Ouvistes as minhas súplicas, meu Deus!
Ele próprio a ergueu. E nos seus braços gastos por tantas lutas voltou a apertar, amorosamente, ternamente, a boa companheira que soubera esperar pelo seu regresso.
 
Foi assim, conta o povo — e o povo tem razão — que a felicidade voltou àquela casa cheia de luto. Num Sábado de Aleluia. Foi bem, na verdade, uma autêntica ressurreição de amor!

Source
MARQUES, Gentil Lendas de Portugal , Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume II, pp. 181-186
Place of collection
VINHAIS, BRAGANÇA
Narrative
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16 Century,
Belief
Unsure / Uncommitted
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Bibliography