APL 340 A lenda da senhora do vale

Remonta a lenda a tempos recuados, tão recuados, que o único meio de transporte para se chegar à cidade do Porto era os barcos rabelos que tudo transportavam.
 Contudo, a sua principal actividade era o transporte do monte, que se compunha de moliço e carqueja, cortado pelas monteiras que se levantavam ao romper da aurora e o traziam até à margem do rio, mais precisamente à praia da Lixa.
 Aí, era carregado para os barcos que o levavam para o Porto, onde servia de combustível nos fornos de cozer o pão.
 Um dia, quando faziam uma dessas entregas numa padaria, os homens deste lugar repararam que, no meio da lenha que ia ser queimada no forno, se encontrava uma imagem de Nossa Senhora.
 Como bons cristãos e homens de fé, ao verem uma imagem de Nossa Senhora prestes a ser queimada, julgaram ser seu dever não permitir que tamanho sacrilégio fosse cometido, tendo pedido que lhes fosse dada a imagem em troca de um carro de lenha.
 Com bastante dificuldade, carregaram-na para o barco e lançaram-se rio acima.
 Diz a lenda que, nesse dia, estava muito mau tempo, caíam grandes chuvadas e o vento era muito forte de Noroeste.
 Eis que acontece algo de sobrenatural...
 Enquanto as outras embarcações se debatiam com as ondas e o vento, o barco onde se encontrava a imagem descoberta, viajava sem dificuldades sobre as águas e a uma velocidade superior à dos outros.
 Os homens, ao aperceberem-se que algo de anormal se passava, atribuíram-no ao facto de no seu barco viajar o precioso achado.
 Foi então que a baptizaram com o nome de Nossa Senhora do Vale, visto que os homens que a tinham salvo pertenciam à família Vale.
 Mas não acabou aqui a lenda desta imagem um pouco tosca, mas bela, de Nossa Senhora, que foi trazida para a Capela de Leverinho e aí depositada. Daí saiu algumas vezes em procissão, mas devido ao seu porte e peso resolveram, então, que deveriam despedaçar-lhe as costas, tornando-a oca, para que assim o seu transporte se tornasse mais fácil.
 Atém deste acto de crueldade, a imagem foi dada como profanada por não ser reconhecida por nenhum pároco ou bispo e não se saber qual a sua proveniência.
 Neste momento, encontra-se na sacristia da Capela de Leverinho e lá permaneceu todos estes anos no anonimato.
 Por ser pouco conhecida, gostámos de vos ter contado esta ‘Lenda da Senhora do Vale’.

Source
S/A, . Lendas de Gondomar , Câmara Municipal de Gondomar, 1995 , p.5-6
Place of collection
Covelo, GONDOMAR, PORTO
Informant
Cátia Marisa da Rocha Vieira (F), 12 y.o.,
Narrative
When
20 Century, 90s
Belief
Unsure / Uncommitted
Classifications

Bibliography