APL 290 Lenda de Nossa Senhora dos Carvalhais

A Feira dos Carvalhais, talvez a mais antiga da região, realiza-se na última Sexta-Feira de cada mês. O local é hoje um grande descampado, situado entre sombrios pinhais, numa região particularmente rude, entre a alvura da Estrela e a verdura do Caramulo.
 A vila de Cabanas de Viriato, as aldeias de Travanca de S. Tomé e Alvarelhos vigiam o local que se esconde entre os pinheirais, limitado pelo regato que saltita de pedra em pedra em direcção aos Cabris.
 Num livro antigo existente na Igreja Paroquial em Oliveira do Conde podemos ler: sendo primeiro do glorioso Rey de Portugal D. Afonso Henriques, huma brenha muyto espessa d’arvoredos, matos e silvados”, o que nos leva a concluir que, em 1179, nos Carvalhais havia um denso arvoredo.
 Conta-se que no carvalho maior apareceu uma imagem de Nossa Senhora e que o povo a retirou de lá e a levou para a Igreja de S. Pedro, em solene procissão, e a colocou no altar-mor, homenageando-a com muitas flores.
 Contudo, no dia seguinte, para espanto de todos, não se encontrava no altar e foi reencontrada no mesmo carvalho. Ora, o povo entendeu que a vontade de Nossa Senhora em de permanecer ali. Então, o povo e o pároco resolveram desbravar a mata e erguer um templo para morada de Nossa Senhora. Ao executarem o trabalho de cortar a densa mata de tojos, giestas e silvas encontraram uma capela em ruínas que, segundo a crença do povo, seria a antiga morada de Nossa Senhora.
 A lenda diz que a origem desta imagem é anterior à invasão e domínio dos mouros que deram entrada na Península após o ano 711, período de perseguições, destruição de templos, morte e sacrifícios do Clero e violação de toda e qualquer simbologia cristã. A imagem escapou milagrosamente na sua «fortaleza» - a capelinha do bosque.
 Três séculos mais tarde, após expulsão dos mouros da Península e as paredes graníticas da Capela deixarem passar o gelo e a humidade, a Senhora saiu do seu templo implorando um pouco de paz e de protecção. Mas desejava ficar no bosque de sombras e espinhos, que tanto a defenderam.
 Foi assim que a capela foi construída, ao fundo do campo dos Carvalhais, perto do ribeiro, ao lado de uma velha e bonita fonte com uma carranca de granito que, segundo a crença do povo, era de águas milagrosas.
 O templo foi paramentado rica e preciosamente pelos paroquianos, que lhe estabeleceram bens vitalícios de conservação do templo e culto a Nossa Senhora dos Carvalhais. Para administrar esses bens instituiu-se uma confraria e nomearam-se os mordomos - um representante de cada uma das nove aldeias da freguesia de Oliveira do Conde - «obrigando-se a darem por cada bairro hum sem voto de um Boy que são nove Boys em louvor da mesma Senhora dos Carvalhais no seu mesmo sítio no dia de Domingo infra outava da Natavidade de Nossa Senhora no mez de Setembro de cada anno e a pagarem em cada hum anno a quarta parte de cada um dos nove bodos para a fabrica do templo da mesma Senhora e para as myças que se aplicam nos sabados de todo o anno e se obrygou o Reverendo Parrocho por sy e seus sucessores as eleyções de todos os mordomos e a fizer benzer as carnes dos mesmos bodos e elles se obrigarem a dar-lhe de oferta para a solenidade do dito dia dois pens de trigo e quatro arrates de vaca da massa da perna de cada um dos nove bodos e ficar na escolha de cada hum dos nove mordomos ou dar o dito bodo á custa de cada hum dos ditos boys ou pagar dos seus próprios bens a quarta parte da esmola á Senhora e a oferta ao Reverendo Parrocho. E para que em todo o tempo conste esta verdade certa obrigando Reverendos Parrochos e Fregueses mandamos a presente para que se cumpra e guarde como nela se contém».
 Este compromisso, que consta do velho livro já citado, está assinado por Dom Joam de Mello, bispo de Viseu, datado de 5 de Novembro de 1694.
 Por quanto tempo cumpriram, párocos e fregueses, as obrigações que assumiram por si e pelos seus sucessores em pacto solene, não sabemos. O que sabemos é que a confraria se extinguiu, a casa onde se reunia abateu, os mordomos desapareceram e nem mesmo a provisão de D. João V, de 1739, autorizando a feira dos Carvalhais, para que o seu rendimento se destinasse à manutenção do culto da Senhora milagrosa já não se cumpre. Tudo se desfez na voragem do tempo e a própria lenda, tão poética e tão sugestiva, só vive nas velhas páginas quase ilegíveis dum velho livro esquecido.
 A capela lá está com o seu campanário silencioso. A imagem de Nossa Senhora já não é homenageada e nem lhe é permitido viver na sua «casa»; pois, a capelinha foi barbaramente assaltada no ano de 1974 e levadas todas as imagens dos santos, escapando milagrosamente a Senhora dos Carvalhais, que sorri, na Igreja matriz de Oliveira do Conde, por se ver protegida, mas desejando, talvez, regressar um dia e permanecer em paz na sua tão querida capela.

Source
ALVES, Maria da Piedade Lopes Memória e Tradições , DREC - CAEV coord. concelhia de Carregal do Sal, 1995 , p.30-31
Place of collection
Oliveira Do Conde, CARREGAL DO SAL, VISEU
Narrative
When
20 Century, 90s
Belief
Unsure / Uncommitted
Classifications

Bibliography