APL 3000 Lenda da Bela Infanta

A lenda que vamos contar anda na boca do povo, que a recorda e comenta com lágrimas e sorrisos. Pertence ao cancioneiro popular, e alcançou tal agrado, talvez porque dela emana a própria essência do amor. Desse amor de que Luís de Camões deu a mais bela definição poética, no imortal soneto:

Amor é fogo que arde sem se ver;
é ferida que doi e não se sente;
é um contentamento descontente;
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais de bem-querer;
é solitário andar por entre a gente;
é um não contentar-se de contente;
é cuidar que se ganha em se perder.

É um estar-se preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode o seu favor
nos mortais corações conformidade
sendo a si tão contrário o mesmo amor?


Os sinos repicavam alegremente. Trocavam-se frases rápidas de assombro e encanto: «Como os noivos vão bonitos!...» «Ele parece um rei!...» «E ela? Tão linda, tão ricamente vestida, tão nova!...»
Era, na verdade, um casamento de amor. Viera gente de todos os lados para assistir à cerimónia. Embora doze anos mais velho, ele vinha garboso, imponente, ao sair do templo, junto da sua jovem esposa. Era o Grande Capitão! O maior herói do reino! E as aclamações juntaram-se à aleluia dos sinos, ecoando nas almas...
Nesse momento em que tudo eram hossanas, só um homem acalentava sonhos de ódio. Era também poderoso, mas sofria! Sofria porque ela, a bela infanta, preferira o outro!
Foi para casa abatido, forjando vinganças. Não concebia a alegria do povo. Parecia-lhe idiota, tudo aquilo. E pensava. Pensava alto, no isolamento dos seus aposentos, na forma de conseguir o que sempre desejara. De súbito, bateu com a mão na testa, exclamando:
— Achei! Achei a forma de levar a cabo a minha vingança! Sei o que hei-de dizer a el-rei. Sei bem como conseguir que el-rei o mande para longe! Não terão mais um dia de felicidade! E talvez sozinha… abandonada... a bela infanta acabe por esquecer o marido! E esquecendo-o... reparará em mim! É isso!... Como pude levar tanto tempo a conceber uma coisa tão simples!...
O homem poderoso esfregou as mãos de contente. Depois, já mais calmo, preparou-se para escrever uma carta a el-rei, ciente já do bom acolhimento ao seu pedido, da resposta que viria rápida...
De facto, a resposta não se fez esperar, enviada directamente a casa do Grande Capitão.
Ao inteirar-se da vontade de el-rei expressa nessa mensagem, o Grande Capitão ficou apreensivo. Sua esposa, que lhe espiava a expressão, perguntou aflita:
— Que se passa, senhor meu esposo? Que lestes nessa carta que tanto vos atormenta?
O Grande Capitão suspirou fundo antes de responder:
— Senhora, o que vem nesta carta enche-me de espanto! Como é possível que el-rei me peça tão grande sacrifício, tendo eu casado apenas há seis dias?
— De que sacrifício falais?
— Acaba de chegar uma ordem de el-rei para que parta à frente da Armada, na guerra contra os infiéis. Já vedes, senhora, que é uma ordem para ser cumprida!
A jovem esposa fez-se terrivelmente pálida. Juntou as mãos. Murmurou:
— Como é possível tamanha crueldade vinda do nosso rei e senhor?
— Penso, meu amor, que isto deve ser obra de algum ruim conselheiro!
Ela foi até junto do marido. Pegou-lhe numa das mãos e acariciou-a.
— Como podem a inveja e a perfídia chegar junto d’el-rei?... Fostes sempre tão bom... tão generoso!... Não devíeis ter inimigos.
Ele meneou a cabeça. 
— Boa sois vós, senhora, que estais longe da maldade do mundo! Mas ficai sabendo que o mundo é mau. E os invejosos não perdoam a felicidade dos outros!
Os olhos da jovem senhora inundaram-se de lágrimas.
— Que farei sem vós?
— Pensai em mim, e encontrar-me-eis a vosso lado, hora a hora, minuto a minuto!
— Mas tendes de partir já?
— Tenho apenas mais três dias.
A bela infanta encostou a cabeça ao peito do marido. Chorava baixinho enquanto ele lhe acariciava os cabelos. Depois levantou-lhe a fronte com ambas as mãos e beijou-lhe os olhos lacrimejantes, dizendo:
— Senhora, acreditai que a saudade será tanta que me fará voltar! É tudo quanto vos prometo!
Ela não respondeu. Mas o seu coração bateu mais forte, ao ritmo das lágrimas que corriam ligeiras.

A armada fez-se ao mar chefiada pelo Grande Capitão. Atrás, na alta varanda do palácio, ficou um lenço branco acenando. E mais ao longe uns olhos ávidos, de expressão diabólica, que seguiam sorrindo todo esse drama de despedida.
Só, a bela infanta deixou de ter alegria. Vivia atormentada, esperando notícias, e desesperando se tardavam. As horas contavam como meses e os meses como anos! E um dia, a bela infanta deixou de ter notícias do seu bem-amado esposo. A angústia não a deixava comer nem dormir. Vivia momentos de desespero, enviando mensagens a el-rei no intuito de conseguir novas do Grande Capitão da Armada. Mas o rei, ou não respondia, ou mandava dizer-lhe que também ele esperava notícias...
Um dia em que a bela infanta levara a chorar angustiadamente, alguém chegou ao seu palácio e pediu para lhe falar. Correu a jovem ao encontro do desconhecido que, ao vê-la, se curvou numa respeitosa vénia.
— Senhora, trago-vos novas de vosso esposo.
Ela não pôde conter a ansiedade.
— Dizei, senhor! Sejam elas quais forem!
— Pouco vos sei dizer. No entanto sabemos que a Armada naufragou. Creio que morreram todos...
A infanta não pronunciou uma palavra, não soltou um ai: caiu desamparada no chão!
O alvoroço que secundou esta cena foi enorme, pois a jovem senhora era muito estimada de todos. Esteve doente quase um mês. Salvou-a a juventude e os cuidados do físico e das damas ao seu serviço. 
Quando começou a melhorar e se levantou, pediu para subir à torre e de lá olhar o mar. Tentaram impedi-la, mas ela insistiu:
— Quero encarar esse tirano que sepulta tantas vidas! E quero também, voltar a falar ao mensageiro de tão tristes novas!
Logo se puseram à procura do homem distinto que ali estivera em certa tarde. Inexplicavelmente, ele apareceu quase a seguir. Entrou risonho, como se o mundo fosse sempre um paraíso. Beijou a mão à bela infanta. Esta indagou, serena:
— Dizei-me, senhor: fostes companheiro de meu esposo?
O homem sorriu.
— Disse-vos que morreram todos. Se ainda aqui estou... deveis compreender que não fiz parte dessa expedição.
— Foi então el-rei quem vos mandou a minha casa?
— Também não, senhora.
— Então... porque viestes?
— Porque não poderia ver murchar tão bela flor sem nada fazer para a salvar!
— Que quereis dizer, senhor?
— Que há muito vos admiro! Sou poderoso e tudo quanto desejardes poderei oferecer-vos!
— Tudo?
Animado, ele continuou:
— Tudo, senhora! Talvez até o próprio reino!
Com uma serenidade que ela própria desconhecia, perguntou:
— Podeis acaso restituir-me o meu marido?
Ele encarou-a, perplexo. Depois recompôs-se.
— Senhora, desculpai que vos diga... mas estais errada! A vida que recebemos é para ser vivida e não para desperdiçá-la!
— Já não tenho alegria!
— Eu vo-la darei de novo! Basta que aceiteis casar comigo!
A bela infanta levantou-se, a lembrar-lhe que a entrevista chegara ao fim. O homem levantou-se também. Mas antes de retirar-se declarou:
— Não desistirei, senhora! Os mortos não voltam. E para os vivos é que o Sol se levanta todos os dias!

Tal como dissera, o homem poderoso não mais largou a bela infanta. Visitava-a três vezes por semana. Impunha-lhe a sua presença com tanta força de vontade que ela sentia-se impotente para o mandar embora. Todavia, no íntimo do seu ser, pedia a Deus que lhe restituisse o marido perdido ou a levasse também.
Um dia em que o homem poderoso estava de visita à bela infanta, notou-lhe uma expressão desusada. Perguntou, curioso:
— Senhora, pareceis mais leve… menos pesarosa... Será que a vossa saudade vai diminuindo? Se assim é, dou-me por feliz!
A bela infanta sorriu.
— Se isso vos agrada, vou esclarecer-vos quanto à minha disposição menos sombria. Sonhei hoje que meu marido regressara ao reino!
Ele riu.
— Que ideia! Já vos disse que os mortos não voltam!
Da entrada do salão, uma voz soou:
— Quem sabe, senhor? Às vezes até os mortos voltam!
A bela infanta deu um grito. O recém-chegado correu para ela. Abraçaram-se. Confundiram as suas lágrimas.
Desesperado, o homem poderoso quase gritou:
— Garantiram-me que a armada se perdera!...
— E perdeu!
— ... que tinham morrido todos!
— Quase todos. Mas quis Deus fazer-me voltar para impedir mais uma das vossas ciladas. Sei agora quem foi que arquitectou a minha saída!
— Como o sabeis?
— Acabo de chegar do palácio real! A vossa intriga foi desfeita! E agora saí, enquanto a minha espada vos não procura lá fora.
A infanta agarrou uma das mãos do esposo.
— Não! Não queirais bater-vos com esse demónio, agora que voltei a encontrar-vos!
— Já não temo os demónios, depois de voltar do inferno em que me vi! E se ele é demónio, ou alma ao seu mandado, que rebente! Deus está comigo!
Nesse mesmo momento ouviu-se um grande estoiro e o palácio abalou como se fosse ruir. Quando, porém, tudo voltou à normalidade, o homem poderoso e mau havia desaparecido como o fumo! Então, felizes de novo, a bela infanta e o Grande Capitão renderam graças ao Senhor por tamanho milagre!

Source
MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisbon, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume V, pp. 17-21
Narrative
When
16 Century,
Belief
Unsure / Uncommitted
Classifications

Bibliography