APL 3632 A donzela encantada e o jogador

Na aldeia de Ribeirinha, concelho de Mirandela, brota de uma fraga uma água muito pura, que o povo acredita ser milagrosa. O local é hoje conhecido como Fonte de Nossa Senhora da Ribeirinha.
    Conta-se que numa ocasião ia de noite um homem àquela fonte e viu lá uma cobra. Vai daí, agarrou num pau e aprontou-se para lhe dar com ele. Nisto, a cobra pôs-se a falar e disse-lhe:
    — Não me mates, que não te arrependerás!
    O homem ficou muito admirado e já não lhe deu com o pau. Ela então continuou a dizer-lhe:
    — Eu sou uma donzela encantada e amanhã acaba o meu fado. Se aqui vieres à meia-noite, eu subo por ti acima e dou-te um beijo na face. Porém, tu não podes fazer o mais pequeno gesto, nem estremecer, porque se o fizeres dobras-me o fado.
    Na noite seguinte, o bom homem voltou à fonte. Ia cheio de coragem e esperou pela meia-noite. Ela então lá lhe apareceu como tinha dito. Depois subiu-lhe pelo corpo e o homem nem se mexeu. Só que, no momento em que o ia beijar na cara, ele estremeceu. Então a cobra desceu e, com uma fala que mais parecia um rugido, disse:
    — Dobraste-me o fado, mas não te arrependerás de aqui ter vindo. Todas as noites aqui encontrarás três moedas.
    O homem nunca se esquecia de ir lá buscar o dinheiro. Fazia-lhe jeito. Só que uma vez, quando estava a jogar, perdeu. E não se mostrou nada incomodado com isso. Disse então aos outros jogadores:

— Enquanto na fonte da Ribeirinha
todas as noites as três moedas encontrar,
hei-de sempre poder jogar.
 
    Tal coisa não tivesse dito. Nessa noite, quando lá foi saber das três moedas, o que encontrou foram três carvões. E nas noites seguintes nem isso.

Source
PARAFITA, Alexandre A Mitologia dos Mouros: Lendas, Mitos, Serpentes, Tesouros Vila Nova de Gaia, Gailivro, 2006 , p.281-282
Year
1999
Place of collection
Bouça, MIRANDELA, BRAGANÇA
Informant
Sílvia de Jesus Felgueiras (F), 46 y.o.,
Narrative
When
20 Century,
Belief
Unsure / Uncommitted
Classifications

Bibliography