APL 123 Lenda da Capela das Almas Pobres

O Funchal antigo era pródigo em ruelas e vielas estreitas, nas quais um sítio primava pelas características propensas às esperas, modo caceteiro de resolver os problemas de amor e ódio, malquerenças e assaltos por via do roubo. Esse ponto ficava para os lados da Achada, tendo à esquerda o mosteiro das Claristas e à direita o convento das Mercês. Caminho cheio de cotovelos e rochas abruptas exigindo passo cauteloso, em determinada altura passava por uma pequena caverna parcialmente encoberta com as sombras, dia e noite, e outra parte com a folhagem das trepadeiras. Propício a assaltos, em resumo. Assaltos de malfeitores ou, mesmo na imaginação das gentes, do próprio bicho-mau! De qual4uer modo, aquele era um lugar apartado das leis do mundo.
 Nos anos 30 do século passado, foi demolido o convento das Mercês e o ínvio caminho dos assaltos tornou-se numa rasgada e arejada rua, passando finalmente a servir do modo mais conveniente a população que para aquelas bandas tinha construído, e continuou a construir, as suas casas. No entanto, encravada na rocha, a olhar a moderna curva saliente daquele troço de estrada, alinhada no verde que pende do paredão pedregoso, continua vigilante do transeunte a modestíssima capelinha das Almas Pobres.
 À primeira vista, o pequeno templo nada mais nos parece do que um desses tantos nichos que os homens costumavam colocar nas encruzilhadas de mau agouro. Mas a fé e a crença dos antigos recordavam nesses nichos alguma aparição, ou então através deles pediam a quem passava um Pai Nosso e as Avé-Marias da devoção, pelos mortos das cercanias ou pela alma de algum justiçado naquele lugar.
 Mas a Capela das Almas Pobres tem uma lenda bastante diversa. Aqui a contamos.

 Homem cristão e de bom feitio, porque a viela entre as rochas lhe encurtava bastante o caminho, entre o sítio dos seus afazeres e o lar, um comerciante diariamente a utilizava. Ziguezagueando a evitar pedras, raízes, lamas e outros empecilhos naturais confundidos muitas vezes com a obscuridade, o homem metia-se por onde outros não se atreviam.
 Na altura da sua vida em que o acompanhamos, ele é já um sujeito de provecta idade, mas sabemos que desde menino sempre foi pessoa muito devota às Alminhas do Purgatório. Raro era, pois, o dia, vejam lá!, que as não lembrasse nas suas orações e com esmolas de caridade.
 Mas nem sempre a amizade é compensada com a reciprocidade. E o bom cristão não se apercebeu que, em determinada altura, se esvaira da outra banda o apreço que tinha com um outro homem, a quem sempre ajudara e abrira as portas protectoras de sua casa e fazenda. E a malquerença do outro subiu da ingratidão ao desejo de dar morte àquele que o salvara em amargas situações. Lá o porquê deste ódio não nos conta a lenda. Coisas...
 Sabedor dos caminhos diários do seu protector, o desgraçado forjou um plano para o matar. Seria o mais baixo sentimento da mais baixa inveja a
empurrá-lo? Pois insisto que a lenda sobre isso nada nos diz, mas ainda sugere...
 E a caverna oculta no caminho foi o lugar escolhido. Aí se meteu, armado de varapau ferrado, o raivoso, atento às passadas que não tardaria a ouvir.
 Porém, as coisas nem sempre correm pelo melhor aos criminosos, já que, ao contrário do habitual, o protector e amigo não se aproximava só, mas na companhia de outro, um tipo espadaúdo, com quem conversava animadamente. Os dois noctívagos passaram pela caverna e pela impotência do escondido, que achou melhor não medir forças, sequer traiçoeiras, contra dois. Adiante os amigos despediram-se, mas era já terreno aberto e o perigo não ameaçava.
 O homem que odiava é que não desarmou. No dia seguinte lá estava ele de novo no esconderijo, à espreita do regresso do protector. Custava-lhe estar ali metido no buraco da parede, que o apavorava a possibilidade das almas do outro mundo o irem acossar. Mas a fúria cega era mais forte. Mais forte que o cansaço de posição forçada, do que a inumana vigília e do que os frios suores que lhe molhavam o rosto. Mas, uma vez mais, a sua possível vítima surgiu acompanhada do novo amigo, que ele temeu ver voltado contra si, pois se tratava, como atrás disse, de um corpulento homem, no entanto senhor de boa conversação.
 Aconteceu assim dias a fio, sempre a mesma presença incómoda e tutelar a par com o benfeitor que odiava.
 
 Ora, para além da tentativa frustrada de assassínio, outra coisa pesada ocupava o cérebro embotado do malfeitor: saber quem seria o companheiro e involuntário protector daquele a quem queria abater. Conhecia-lhe os amigos todos, conhecia toda a gente do Funchal, muitas pessoas dos arredores, mas ninguém tinha aquele porte. Por certo seria algum recém-chegado do continente. Tanto cismou que aquelas coincidências acabaram por perturbá-lo. E tocaram-lhe bem fundo da alma. A ponto de o invadir o arrependimento. Tal, que se dirigiu àquele a quem queria matar.
 A seus pés arrojado contou-lhe as vezes que o esperara a coberto da noite e das pedras. Pediu-lhe perdão com toda a humildade e sinceridade. E como o seu ainda benfeitor, com as boas palavras de quem tudo queria esquecer, lhe perguntou porque o não assaltara efectivamente, ouviu:
 — Porque sempre um corpulento desconhecido o acompanhava, consigo conversando! A minha cobardia não me permitiu que atacasse os dois!
 — Como pode ser isso!? — exclamou, incrédulo, o bom cristão — Se eu sempre regressei sozinho a casa! Nunca ninguém me acompanhou, isso garanto!
 Animou-se entre os dois a conversa. Por fim assentaram que ambos tinham razão e que o desconhecido noctâmbulo, que salvara o comerciante de morte certa e, sem testemunhas, fora, nada mais nada menos, do que alma penada, que, pelas orações e missas do justo, merecera o reino dos céus e assim lhe demonstrara o reconhecimento.
 Para memorar o facto para todo o sempre, o homem rico mandou construir na própria gruta da cilada uma capela de devoção. Ali, aberta na rocha viva, aquele modesto altar consagrado às Almas do Purgatório.
 
 A Capela das Almas Pobres foi fundada em 1781, por Roque de Araújo, natural de Viana do Castelo, e que por escritura dessa data lhe atribuiu a pensão anual de cinco mil réis. Com esta pensão se atentaria às despesas da capela. O altar não tem mais de seis palmos de fundo por nove de largura. No interior da capela há apenas lugar para o sacerdote celebrante e respectivo ajudante.
 

Source
MOUTINHO, Viale Lendas e Romances da Ilha da Madeira Porto, Editora Nova Crítica, 1978 , p.39-46
Place of collection
FUNCHAL, ILHA DA MADEIRA (MADEIRA)
Narrative
When
20 Century, 70s
Belief
Some Belief
Classifications

Bibliography