APL 3189 Lenda da fundação da Igreja da Benedita

Em tempos antigos, a aldeia da Benedita era um pequeno lugarejo, cujos fogos estavam divididos em Três freguesias: Turquel, Alvorninha e Santa Catarina. O lugar não tinha templo onde o povo pudesse orar e, por isso, os habitantes resolveram mandar fazer uma capela que ficaria sob o patrocínio da Nossa Senhora da Encarnação. Reuniram-se, quotizaram-se e mandaram fazer a capela no centro do lugar, no local onde hoje se ergue o cruzeiro.
    Foi a obra dada de empreitada a um homem de apelido Aleixo, residente no Casal dos Salões, e deu-se começo à capela, mas todas as manhãs apareciam as paredes aluídas e erguidas no local onde hoje está a pequena igreja, mas aumentadas sempre de mais um cunhal. Começava a circular entre o povo a versão de que era um milagre. Nossa Senhora não queria a capela no centro do lugar, mas sim onde todas as manhãs apareciam os materiais. Uns, eram crentes no milagre, outros, não sendo o mais obstinado contraditor do milagre o próprio empreiteiro.
    Perto do local, há uma fonte, e o aludido Aleixo, que tinha uma fazenda contígua, costumava mandar duas filhitas buscar água à fonte. Um dia, as pequenas vão encher os cântaros, e Nossa Senhora, envolta em branca nuvem desce até ao pé da pequena mais nova, envolvendo-a de forma a ocultá-la aos olhos da irmã e revela-lhe que transmita ao pai os seus desejos de que a capela seja feita no sítio onde foram encontrados os materiais. A pequena, de volta a casa, conta ao pai o sucedido. Interrogada a mais velhinha, que nada vira, negou a aparição e a mais novita é admoestada pela suposta mentira.
    No dia seguinte, vai o homem lavrar para perto da fonte e as petizes voltam mais uma vez à água. Nova aparição à mais nova e, de novo, lhe recomenda que diga ao pai para lhe fazer a capela onde ela pretendia. A criança diz à Virgem que o pai está descrente. Nossa Senhora, para o convencer, faz-lhe anunciar pela filha que um boi lhe irá cair repentinamente morto no rego da lavrada, o que sucede mal acabou a pequenita de transmitir ao pai esta previsão sinistra.
    Cheio de temor, o homem ordena então à filha que torne à fonte e que peça à Senhora que lhe reanime o boi que ele lhe faria a capela no lugar onde Ela queria.
    A pequena vai, Nossa Senhora aparece-lhe de novo e ela transmite-lhe o pedido do pai. A Senhora, sorrindo, disse-lhe que fosse descansada que já iria encontrar o boi a trabalhar. Assim sucedeu.
    O empreiteiro cumpriu a palavra, e a Igreja foi erigida onde hoje se encontra e a fonte, onde a Senhora havia aparecido, ficou a chamar-se a “Fonte de Nossa Senhora”.
    A Virgem para que ficasse perpetuada a lembrança da sua Aparição, deixou a sua imagem gravada numa pedra broeira que, anos depois, alguém, bem intencionalmente, colocou junto ao fontanário, para memorar o facto.
    Um virtuoso sacerdote, pároco da freguesia, mandou remover a pedra para a Igrejinha, mas esta desapareceu com o rodar dos anos.

(In: “O Estudo da Literatura Popular e das Tradições Orais Estremenhas — Lenda da Fundação da Igreja da Benedita” por Guilherme Felgueiras, inserido no “Boletim da Junta de Província de Estremadura”, série II, n.°23, de Janeiro/Abril de 1950)

Source
S/A, . Algumas Lendas da Região de Alcobaça (Dossier de Informação Turística) Alcobaca, Câmara Municipal de Alcobaça, 2000
Year
1950
Place of collection
Benedita, ALCOBAÇA, LEIRIA
Collector
Guilherme Felgueiras (M)
Narrative
When
20 Century,
Belief
Unsure / Uncommitted
Classifications
Types
Christiansen [7060] Site Disputado para uma Igreja

Bibliography