APL 862 Senhora da Orada

Corria o ano da Graça de Nosso Senhor de 1569, e pelas terras do Vale do Minho espalhava-se a peste. Em todas as freguesias as pessoas estavam apavoradas com o terrível flagelo. Ricos e pobres eram atacados por um grande febrão, e ninguém parecia escapar a esta desgraça. Cheios de pavor e de fé, todos se voltavam para os santos, pois só a eles parecia restar o poder para debelar tão grande infortúnio.
 Por essa altura, morava no lugar da Assadura, junto da Senhora da Orada, Tomé Anes, mais conhecido como o “Vira-Pipas”, pois andava sempre com uma malguinha a mais. Tomé Anes era uma figura alegre, mas um pouco desbocada, quando importunado com a alcunha. Para além de umas pequenas leiras que amainava, Tomé limpava e arrumava a capela da Senhora da Orada, trabalho que fazia com muito desvelo e devoção.
 Numa certa manhã, como de costume, Tomé foi arranjar a capela. Como era ainda cedo, só tinha tomado o seu «mata-bicho», lá em casa, e uma pequena malga de vinho na tasca da Mirandolina. Chegado à capela, o “Vira-Pipas” quase morreu de susto, pois a imagem da Senhora da Orada não estava no seu lugar, nem em qualquer outro! Vezes acontecia que chegava a ver duas ou três imagens da Senhora, quando a borracheira passava do normal. Não ver nenhuma assustava-o seriamente. Cego não estava! Ainda perguntou à imagem do Senhor S. Brás pela ausente, mas como este não respondeu, pensou que teriam sido os Galegos os autores de tão vil afronta. Furioso saiu o “Vira- Pipas” em direcção à vila de Melgaço para comunicar o sucedido ao Alcaide, e disposto a juntar o povo para enfrentar tal desfeita.
 Ia o Tomé nestes propósitos pela via romana, quando o chamaram da casa do Arrocheiro para dar uma ajuda na trafega do vinho. Este era trabalho a que nunca se negava o Tomé, já que entre o passar dos cabaços do vinho lá ia bebendo uma pequena malga do apreciado líquido. Depois de muito bebido e comido, deixou-se o “Vira-Pipas” levar pelo sono, de modo que já só noite dentro acordou e contou o sucedido para os lados da Orada ao seu amigo. Conhecendo os hábitos do Tomé, este só se riu, não acreditando em tão fantasiosa história. Mas como o Tomé insistia tanto, concordou em confirmar o acontecido com uma visita à igreja. Ao entrarem, verificaram que a imagem da Virgem estava no seu lugar. O único surpreendido era o “Vira-Pipas”!
 No dia seguinte, muito envergonhado, decidiu o Tomé ir à Senhora da Orada mais cedo do que era costume. Para testar as suas capacidades, num grande esforço, não bebeu a sua malguinha de vinho, nem o imprescindível «mata-bicho»! Chegou até a meter a cabeça debaixo da fonte, para dissipar os possíveis vapores alcoólicos do dia anterior.
 Na capela verificou que só estava o menino Jesus, sentado, com aquela cara de choro que toda a criança tem quando a mãe não o leva ao colo. Tomé ficou abismado, sem saber o que fazer. Com medo que se rissem dele, não contou a ninguém, preferindo entregar-se ao trabalho, ao ponto dos conhecidos ficarem admirados com tal dedicação. De manhã e à noite ia à capela, e verificou que a senhora da orada voltava à noitinha. Umas vezes levava o menino, outras não. Só o Tomé sabia destas fugas, e pressentiu naquele mistério uma grande responsabilidade. Não lhe passava da ideia o que lhe acontecera, julgando-se destinatário de uma mensagem da Senhora para que abandonasse o consumo do álcool. Por isso, começou a diminuir no vinho, o que a todos surpreendeu!
 Enquanto isto sucedia ao pobre do Tomé, em Riba de Mouro, no concelho de Monção, os habitantes viraram-se para a milagrosa Senhora da orada a fim de se livrarem da mortífera peste, que por aqueles anos assolava toda a região. Para agradar à Senhora, prometeram uma romagem anual à capela.
 Depois de aparecerem os primeiros casos, surgiu na dita freguesia uma senhora, muito bonita e educada, que dizia saber como tratar aquela doença. Ninguém sabia donde ela viera. Entrava na casa das pessoas doentes, mandava fazer um chá com uma planta que trazia no alforje, e, juntando outras ervas, mandava preparar um banho que ela própria passava no corpo do doente, fosse mulher, criança ou homem. Recomendava às pessoas que se lavassem dom ervas de Santa Maria e folhas de sabugueiro, que defumassem as casas com alecrim, e lavassem as roupas amiúde. A bondosa dama não tinha mãos a medir! De manhã até à noite, não parava de atender os doentes. Não comia nem aceitava convite para ficar à noite com eles. Quando trazia um menino, que dizia ser seu filho, este ajudava a descobrir a erva de Santa Maria e os sabugueiros que o povo não sabia onde mais encontrar.
 Entretanto passaram-se quarenta dias, e a peste abrandou. Poucas pessoas sobreviveram ao flagelo, mas em Riba de Mouro ninguém morreu! A senhora que tinha ajudado a população desapareceu tal como havia surgido. Todos se perguntavam agora sobre a identidade daquela misteriosa senhora. Alguém se lembrou, então, que a roupa, e até a fisionomia, eram iguais à da Senhora da Orada!
 Nesta certeza, logo partiram em romaria ao seu santuário, agradecendo a protecção. Vendo tal devoção e escutando o sucedido, o Tomé entendeu rapidamente o que lhe tinha sucedido e resolveu contar a todos os desaparecimentos da Senhora naqueles dias anteriores. Agora, todos acreditaram!
 Os romeiros partiram, espalhando o relato do milagre por todas as freguesias.

Source
CAMPELO, Álvaro Lendas do Vale do Minho Valenca, Associação de Municípios do Vale do Minho, 2002 , p.81-83
Place of collection
MELGAÇO, VIANA DO CASTELO
Narrative
When
1569
Belief
Unsure / Uncommitted
Classifications

Bibliography