APL 504 Lenda dos baptizados da meia-noite

Era uma vez um homem de idade avançada, mas saudável e musculado como um jovem.
 Vivia nas montanhas da Serra Amarela, em Ponte da Barca, e tinha o cargo responsável de pastor vigieiro, soltando o grito viril “Bota la rês!”, quando a Primavera floresce os vales e as brandas se enchem de gado retouçante.
 Espantava tanto vigor e alegria, capaz de animar, sem fadiga, o terreiro das romarias, no rodopio das danças e no lançar ao desafio, com voz bem timbrada, uma cantiga brejeira; de suportar, nos ombros alentados, o peso dos andores, ou segurar, firme, nas mãos, como vela de navio batida pelo vento, o pendão dianteiro da procissão; de voltear, com perícia, o varapau de lódão, a separar uma briga de feira, e de enfrentar, sem medo, a arremetida do lobo saído das brenhas.
 Um dia, interrogaram-no sobre a causa de tanta energia, a origem da tanta coragem e força. Então, ele, como que em segredo, confessou o mistério dessa espantosa longevidade robusta:
 Fora baptizado, à meia-noite, com as águas do Lima, ainda no ventre materno, pouco antes de ser dado à luz, para que o parto corresse bem!
 O costume, tradicional, praticava-se, com frequência, muitos anos atrás, na confluência das terras dos Arcos de Valdevez, Ponte da Barca e de Ponte de Lima.
 E conta-se em curtas palavras: Quando uma mulher daquelas bandas atingia os últimos meses de gravidez, o marido e os parentes mais chegados levavam-na, de noite, até às margens do Lima, quanta vez descendo, com dificuldade, ásperos córregos de pedra solta e urzes, entre a bruteza dos matagais, à luz bruxuleante de uma candeia.
 Chegados, alguns deles aguardavam, numa das estradas ladeando o rio, o aparecimento da primeira pessoa que por ali passasse, dada a meia-noite e antes de despontar o dia, convidando-a “a fazer uma alminha cristã.”
 Porém, se depois dessa hora, um cão ou um gato atravessassem o caminho, o baptizado ficava adiado.
 Pelos tempos de Inverno, quando as noites são tempestuosas e as cheias e o regougar da corrente afastam o viandante, era difícil lobrigar padrinho. E também o baptizado sofria uma inquietante espera, às vezes, de dias.
 Mas, se a sorte era propícia, o padrinho improvisado chegava junto da grávida e, com um ramo de oliveira, aspergia água do Lima sobre o ventre volumoso da futura mãe, rezando em cruz:
 - Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo!
 Todavia, era da regra não pronunciar, nem ele nem os presentes, a palavra Amém. O nome da criança seria apenas mencionado pelo sacerdote na pia baptismal. E pronto.
 O Baptismo da Meia-Noite estava, assim, concluído.
 Segundo a convicção do povo, quem receba, em tais circunstâncias, a bênção da água do Lima, nascerá de um bom parto e terá à sua frente uma vida feliz e prolongada. Da verdade desta crença singular é testemunha aquele velho pastor de Ponte da Barca, admirável de juventude.

Source
VIANA, António Manuel Couto Lendas do Vale do Lima Ponte de Lima, Valima, Associação de Municípios do Vale do Lima, 2002 , p.80-82
Place of collection
PONTE DA BARCA, VIANA DO CASTELO
Narrative
When
21 Century,
Belief
Unsure / Uncommitted
Classifications

Bibliography