APL 3116 A moura que fugiu do castelo

Antigamente, não havia água nas casas e, no Verão, quando as fontes secavam, era preciso ir buscá-la lá acima à mina. Não é longe, mas não havia luz e era preciso ir cedo antes de se ir trabalhar para o campo.
Numa dessas madrugadas, um rapaz daqui [Castedo, concelho de Murça], que era muito trabalhador, foi à dita mina e, quando regressava, ouviu chorar. Era um choro de menina muito sentido e triste.
Ele parou e ficou ao pé daquela menina tão linda e tão triste. Ela contou-lhe então que era uma moura ali encantada, que tinha fugido do castelo de Carrazeda de Ansiães por um túnel que vem ter à Serra dos Montes, onde ainda existe o buraco, mas que está atuído. E que o pai a encantou aqui perto da água. Agora esperava por quem fosse corajoso para lhe quebrar o encanto. Depois ela lhe daria muitas riquezas.
O rapaz aceitou o desafio e seguiu o caminho para a aldeia. De repente, ouviu rastejar… era uma cobra enorme. A cobra subiu por ele acima e deu uma, duas e três voltas, ficando com a cabeça voltada para ele. O rapaz aguentou. Mas quando a cobra abriu a boca para lhe dar o beijo, ele estremeceu.
A menina caiu então de joelhos a chorar, dizendo que o seu encanto foi dobrado. E o rapaz adoeceu com as maleitas.
Agora, quase não se ouve esta história, já há água em casa e só se passa no caminho da mina para irem para os campos. Mas como vão de tractor, de carro ou com as carroças, não conseguem ouvir o choro da menina, nem o rastejar da cobra.

Source
PARAFITA, Alexandre Património Imaterial do Douro (Narrações Orais), Vol. 2 Peso da Régua, Fundação Museu do Douro, 2010 , p.222
Year
2004
Place of collection
Candedo, MURÇA, VILA REAL
Informant
Maria do Amparo Martins (F), 75 y.o.,
Narrative
When
20 Century,
Belief
Unsure / Uncommitted
Classifications

Bibliography